A possibilidade de incorporar os avanços tecnológicos ao âmbito escolar está cada vez menos restrita aos laboratórios de computação. Até a mesa usada no dia-a-dia pelos estudantes dos ensinos Fundamental e Médio já possui uma versão totalmente informatizada.
Pesquisadores do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CenPRA), unidade de estudos do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), desenvolveram a Linha de Apoio Pedagógico Tupiniquim, a Lap Tup-niquim, também conhecida como carteira digital. Com a novidade, anunciada em julho deste ano, as mesas não perdem sua finalidade tradicional. No entanto, os alunos podem utilizá-las como computadores.
Segundo Victor Pellegrini Mammana, pesquisador do Centro, o objetivo principal do projeto é garantir que os avanços implementados nos laboratórios de informática façam parte da rotina em sala de aula. A idéia é evitar que as inovações tecnológicas sejam subaproveitadas nesses ambientes, para serem utilizadas de forma plena.
“A presença dessas carteiras na sala de aula dinamiza o processo, tornando o mundo digital parte integrante da realidade dos estudantes. A carteira foi concebida para permitir esta inserção sem perturbar o ambiente da classe com mesas que ocupam muito espaço ou monitores que se interpõem entre o aluno e o professor”, explica.
No lugar do tampo de madeira, a mesa possui um monitor LCD embutido. O pesquisador explica que a carteira possui um dispositivo tablet [gabinete ultra compacto e leve, com formato de laptop ou prancheta], que permite a interação direta com a imagem da tela através da caneta digital.
Com a tecnologia empregada, é possível substituir os dispositivos de entrada tradicionais, como teclado e mouse. E, ao escrever, o aluno utiliza um instrumento semelhante a uma lapiseira tradicional.
“O uso da caneta digital permite também recuperar a experiência da escrita em conjunto com o uso do computador”, emenda, enfatizando que a idéia é oferecer ao aluno a possibilidade de uma experiência mais intuitiva, confortável e saudável de interação com a máquina.
Mammana enfatiza que o projeto foi especialmente desenhado para atender as escolas públicas municipais. A carteira digital é direcionada exclusivamente aos estudantes dos ensinos Fundamental e Médio, apesar de se acreditar nos benefícios que ela pode proporcionar aos universitários. “Sabemos que há interesse pela carteira por parte do Ensino Superior, mas ainda há necessidade de estabelecer um trabalho mais estruturado com este segmento”, informa.
Expectativas
A perspectiva, segundo o pesquisador, é que a carteira digital mude toda a relação no ambiente escolar. Espera-se que ela permita uma nova experiência entre as crianças e adolescentes, estimuladas principalmente pela utilização cooperativa das mesas. Isso porque o tablet usado neste projeto tem a característica multiponto, possibilitando que cada estudante, munido de sua própria caneta, possa interagir com uma mesma imagem simultaneamente.
“O modelo de uso é de um aluno por carteira digital. Mas diferentemente de um laptop, que estimula o uso individualista, a tela grande combinada com o tablet com múltiplas canetas pode incentivar a interação e a cooperação das crianças durante o processo de explorar o que é oferecido pelo mundo digital”, observa Mammana.
De acordo com ele, há a expectativa de que as mesas digitais possam ser agrupadas. “A justaposição de carteiras também poderá ser uma prática, criando grandes superfícies de interação, na linha do conceito do computador surface, porém com um custo muito mais baixo”, afirma.
Mammana lembra que as dimensões da carteira seguem o padrão definido pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e por isso não ocupam mais espaço que os móveis tradicionais. A proposta é que mesa digital não cause prejuízo algum ao processo de aprendizado.
“Esperamos não perturbar as outras dinâmicas que precisam estar presentes em uma sala de aula e que não estão necessariamente ligadas ao mundo digital. Isso é possível no caso da carteira, porque a mesma se transforma em uma mesa comum quando o tampo está na horizontal”, acrescenta.
Acesso às carteiras
O pesquisador explica como está o processo para tornar a invenção acessível ao público-alvo. Segundo ele, o grupo que criou a carteira digital está trabalhando para torná-la mais barata e altamente competitiva com dispositivos de baixo custo. Outro aspecto considerado é a criação de uma forma de produção local do móvel da carteira.
Os idealizadores do projeto prevêem a exploração do conceito de franquia social. “Buscamos aproveitar a capacidade produtiva presente nas próprias cidades onde as carteiras serão utilizadas”, conta, acrescentando que o piloto do projeto está em andamento em uma das escolas da rede municipal de Serrana, a 10 km de Ribeirão Preto (SP).
Pelos cálculos de Mammana, os resultados até o momento são positivos. “Serrana vem liderando todo o processo do piloto da carteira, atuando no desenvolvimento de uma solução local para suas escolas. A idéia é que as próprias cidades se estruturem para criar as condições para que a carteira esteja presente em suas salas de aula. Também há expectativa de que a mesa digital seja oferecida como produto, já que nem todas as cidades têm condições de produzir localmente”, discorre.
Para quem quiser conhecer a carteira digital, Mammana conta que a novidade será exibida em Campinas durante o Latin Display 2008, entre os dias 17 e 20 de novembro de 2008.
*Fonte: Guia das Cidades Digitais (www.guiadascidadesdigitais.com.br)